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27.1.06
entrada de emergência
Eu presto atenção nos seus olhos, mas é sempre quando você já saiu do quarto. Um inseto polinizador rodeando uma flor de plástico que precisa muito de água. A gente queria mesmo ser feliz, mas não encontra no eBay. A gente até gosta de quarta-feira, mas isso não significa que nós somos heróis, aliás, nós nunca entendemos direito esse lance de ser herói. Meu cachorro passeia sem coleira, talvez ele seja um. E eu também, porque vai chover no meu casamento. E vai chover bem devagar. E eu vou chorar bem devagar. E alguém virá me consolar rapidamente. E eu comerei o bolo todo e aqueles noivinhos que ficam em cima. E a vida vai parecer bem melhor conforme eu me entupo de açúcar. Você não saca, mas eu preciso aguar as plantas subaquáticas atrás dos meus olhos. Os brigadeiros estão cheios de formigas, ou outra coisa. Conhecer alguém é uma tarefa complexa terrível. Mas até o céu deve se acostumar com as estrelas novas. Eu não quero ver você dançar sobre o linóleo escorregadio da decepção, compre a passagem de volta. Às vezes somos incapazes de saber onde estamos, ficamos à deriva por causa da liberdade. Há uma fronteira que eu jamais alcançarei, um sonho implorando pelo sono. Então vou enfeitar com lariços-dourados as minhas caras feias. Eu abraço as camisetas por aí e nunca é você lá dentro. Eu sou apenas uma adorável vítima da cópia carbono dos seus abraços. Eu entro no amor como um rapaz perdido entra num seminário. Você não deveria provar meu corpo, ele é um muffin truncado, tem aquele designer bonito, mas faltou açúcar. Vejo suas pernas descobertas, pêlos brilhantes arrepiados, mas este é só o seu prefácio, o resto eu queria enfiar dentro de um iPod. Você acelera alguma coisa dentro da minha casa, a cicatrização das paredes, a reconciliação dos cacos dos vasos quebrados. Seria bom domesticar o meu gato mental, ele lambe o glacê dos bolos que você me dá, dorme na caixa de areia. Minha cabeça é o seu jardim. Minha psique, a sua linha imaginária no mapa. Acabou o sal do meu oceano, esse imenso reservatório de certeza e afeto. Acabou o afeto. Mas não importa o quê o poema diz. A verdade é o que vemos através dos vãos da persiana.
19.1.06
7.1.06
os cavaleiros não se importam com isso
Quando a gente ama um idiota, ele muda de cor. Ele se transforma num techno com o qual você consegue meditar. A música do seu velcro. Seu computador cheio de idéias, o deus magrelo que ele adora. As frases todas cobertas de esmalte, atrás dos seus dentes. Eu queria mais que ser suas fronhas. Eu queria ser as suas colheres. Eu roubo os olhos azuis dos rapazes nas boates para pintar um céu impressionista pra você, e você me diz que prefere chuva. Mas eu também prefiro chuva. Meu coração de molusco é um trem. E você sabe o que os trens fazem com as pessoas. O problema é que as caixas me escondem quando estou dentro delas. As minhas placas estão invertidas, você pensa que eu sou feliz. Meus pulmões são maiores do que eu, mas eu não estou respirando, estou fingindo. Do mesmo modo que entrego tudo com as duas mãos, também peço. Porque não existe destino, só existe o seu zíper. Com certas coisas a gente só pode sonhar. E todo sonho é um inverno, quando o sonhador é um panda tibetano. A minha pele só começa a ser pele, perto da sua. E eu nunca quis tanto estar na minha. E a partir dela, respirar o seu sono. Eu me sinto livre quando desenho você do jeito que eu quero. Eu tiro a letra v do seu nome. Você é depois que eu coloco pilhas novas na minha lanterna. As frases de amor estão dentro da boca. E você sabe o que as bocas fazem com as frases de amor. Aliás, o que elas deviam fazer. E eu não posso dizer nada, um gato comeu a minha língua na pista de dança. Quando vejo você passar, eu também vejo passar o tempo. É um desfile assustador. Portanto, vou me preocupar apenas com as coisas que eu necessito. Nenhum cigarro, nenhum sono, nenhuma luz, nenhum som, nada, não comer, nenhum livro para ler. Fazer amor com você me deixa lúcido, você é um forno de pizzaria. Eu o amo, mas é só por causa do seu nome. Eu sou a sensação e você é a linguagem, e entre nós há um abismo, uma reunião de pais e mestres. Mas eles não ultrapassam as lentes dos nossos óculos escuros. Eles encontraram um novo remédio para quase qualquer coisa. Chama-se "não adoeça". E mesmo assim eu te amo. Eu não obedeço.
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