23.11.05
coração-dakar

Eu me desgrudei das asas de seda. Voltei para o casulo, a manta de lã, a cama. E agora, o que corre nas minas veias, não é mais sangue, é água com açúcar. O lençol da cama dos insetos parece tão mais esticado do que o da minha. Eles parecem tão mais dedicados. E eu sempre me pareci tanto com eles, mas só fisicamente. A minha personalidade é baseada em plástico e nomes de drinques. A lua, eu vejo, é bombardeada freqüentemente por pequenos meteoritos, e ainda assim ela é um modelo. Mas eu não posso. Eu blindei a minha vida com mistério. Eu desenhei o tédio mais lindo, olhando pra ela, a sua resignação apaixonante, mas o que eu queria mesmo era me transformar um pouco nos outros. Impossível, já que eu tiro fotos assim, com a lente tampada. Já que quero ajustar-me para dentro. Já que quero registrar o que tem lá dentro. Eu jogo fora os bilhetes porque para relê-los eu preciso abrir a cabeça. O coração já está aberto. Eu digo isso em néon. Mantenho o humor enquanto derrapo nas curvas perigosas. Porque já entendi o que é "o fim", é o último pedacinho do sanduíche saboroso. No entanto, não sei se prefiro acompanhar o seriado da tevê ou a minha vida ou a vida dos meus amigos ricos. Realmente é necessário intuir. O quê você decide acompanhar até o fim, desenha o seu mundo. Você não gostou do meu açúcar. Não gostou do mar que eu trouxe na boca. Preferiu acompanhar a história do mergulhador, ele trás o mar nas mãos. Eu não poderia, eu usava minhas mãos, os meus dedos, para escovar o seu cabelo. E hoje eu sou um frasco vazio procurando o perfume que evaporou. Você é o meu segredo industrial. Como relembrar um perfume? Às vezes eu sonho para poder conversar com você. E não consigo fechar os olhos. É necessário saber quem você ama de verdade, para beneficiar-se das coincidências afortunadas do destino. Não somos o casal que dança tango na chuva na propaganda do Chivas. Nós somos um casal de salmões voltando mortos para o mar. Um urso devora a nossa carcaça no inverno, antes de se deitar. É o nosso momento de maior privacidade, e o mais romântico. A nossa carne rosa, na boca de um faminto peludo.





 

victorcarbone@excite.com

arquivos