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25.10.05
doçura

Eu só sou invisível porque você não me conhece. Se você me descobrisse, veria que sou tão colorido e inteligente quanto um semáforo. Provaria meu beijo francês, e sentiria na pele, no caule, os danos de ser um dente-de-leão e não um amor-perfeito. Eu tenho a emergência das histórias curtas e a despesa dos longa-metragens, sou um menino-de-rua que veste Dior. O mundo da novela parece tão mais real, pelo ângulo de um sonhador. "Eu e você" é uma sentença que se funde e depois se distancia. Não posso suportar essa despedida mecânica, despedida cíclica, porque você volta, mascaro então o desfecho com os meus freios ABS. Vejo os trilhos do trem como uma extensão do meu abraço. Domino a lucidez, o cansaço, mas eu quero dormir. Com você. Vivo longe de tudo, porque vivo no cinema. Estou dependente do afeto que vem do veludo das poltronas. Eu me deito sobre a cadeira na praia, com os óculos escuros, antes que o sol nasça. Depois, afiança-se para fora, o inverno. Eu congelo na praia espanhola. E só depois de muito tempo percebo que o degelo é uma segunda chance. Saio da cova da solidão em busca de um microondas e posso alegar insanidade. Um menino bonito diante de uma porta fechada é capaz de armar uma grande rebelião. Eu só quero conquistar o mundo sem meus saltos altos. Então, um dia, eu vou escapar da tribo, como uma flor deixando o vaso para conquistar um canteiro. O mundo é uma enorme Febem. E nós somos os pré-adolescentes eternos que trazem dentro do peito, o calor dos radiadores. As abelhas estão dançando sobre os meus ferimentos. É uma espécie de bandagem viva. Estou me transformando na sua nova casa. Para deixar pra ele, a colméia vazia. A gente fica doente tentando fazer conjecturas. Eu faço exames, eu o deixo, eu o ilustro, eu o acordo, ele murmura, em meu meio-sonho embreando minha fantasia, tenho o ar completamente perdido. Mas não é sério, porque estamos cansados demais para mover um dedo do pé. Então ficaremos desmaiados nessa grande cama branca falando o mínimo possível. Até falarmos tudo. E vamos para a colheita boa do verão, no inverno. Cantando só os começos das músicas. Não podemos mudar o destino de Thelma e Louise. E é só o que nós queríamos.


11.10.05


sangue do nariz

Na época do colégio eu sonhava com a época de hoje. E hoje eu perco o sono. Poderia fazer um desenho pra te explicar, mas não vou reproduzir algo que não seja capaz de aliviar a asfixia da ècharpe que me corrompe, a claustrofobia de viver no passado, trancado nessa limusine, essa quitinete enfumaçada, fazendo sexo sozinho, tocando violão errado. Quanto mais meus diplomas exigem assinaturas, mais eu vejo que não preciso de vida acadêmica, preciso de vida interior. Pois não quero ganhar o jogo, estou encantado pelo tabuleiro. Poderia soprar o gás venenoso que flutua sobre as cabeças dos meus pais no tribunal do superego, mas a libertação da mente passa por isso, inclusive. Repressão e negação são monstros que entram no cio. A auto-sabotagem é um redemoinho, não é um baile. É uma bijuteria que brilha muito. É um hábito noturno que perdura durante o dia. É uma aula chata, é uma aula de datilografia. Poderia descrever o que é raspar o verniz que cobre o corpo fetal do ego, mas todo mundo sabe como é. É desolador. Poderia descrever nossos sorrisos tímidos quando nos sentimos atraídos, mas não saberia descrever o seu, e é isso que me intriga. Poderia mentir e dizer que estou amadurecido completamente neste momento. No entanto, apesar da sua aposta discreta, de que meus horizontes são verticais, posso refazer infatigavelmente os mesmos caminhos que percorri com você, os mesmos lados nas avenidas, o mesmo roteiro nas estações de metrô, dia e noite, e nem mesmo assim eu acreditaria em destino. Estar com você nunca foi um passeio, era uma série de becos sem saída. E eu só posso sair deles, voltando pra trás. Ainda estou com o coração engessado, com essa cara de quem está esperando alguém. Esperando algo definitivo, mas nada é definitivo. Então é uma expressão eterna, uma plástica mal feita eterna. Essa ansiedade estúpida que aborta qualquer tentativa de passo. A minha própria presença diária me entedia, enquanto o tempo ainda vaza pelos cantos da minha boca, é triste, sou feio. Mas você é belo, adorável, ainda que não tivesse tanta criatividade para criar uma vida ideal, assim seria. Não pude aceitar seu amor a granel, poli minhas quinas agressivas para caber numa caixa de chapéu. Cada vez que penso em você, fico fraco como uma meia. Malvados martínis.


5.10.05


4.10.05
Postal para Alice Springs

Isso não é rímel, são as suas lágrimas disfarçadas de vida maravilhosa. As lágrimas que nunca evaporam, continuam a rolar no estojo de maquiagem. E voltam pro rosto. A vida é ritmada pela novidade, é por isso que as crianças gostam tanto de girar. Leve-se à festa na cidade, leve a sua bola, a sua mãe, o seu pai, o seu cachorro. Seja agradável, mesmo que ligeiramente. Sorria, ainda que escondido. Faça uma surpresa como o vento, refresque alguém. Dance ao som dos ritmos africanos, como os balões no céu, os estilistas no céu, os pompons. Luvas cirúrgicas são tão difíceis de se colocar, mas ficam tão bonitas nas mãos das enfermeiras. Comova-se com os pequenos animais, quebrados em algum lugar, nas ruas, tente conserta-los; comova-se também com os deficientes, com os tímidos, mas, esses, não, não tente conserta-los. Aprenda canções idiotas com a sua amiga para vocês cantarem durante as aulas de ciências, de pé sobre as mesas, em sinal de protesto. Observe os rapazes voltarem dos beijos nessas grandes festas, observe as moças, elas são sempre puras, mas você não é, nunca se é puro quando se tem um irmão guitarrista de um grupo punk. O seu encontro com a linha de chegada é no dia em que você quer saber se pode correr muito, então deixe que o tempo passe à uma velocidade louca, talvez ele também queira encontrar a linha de chegada. À bordo do desmaio, demita-se, indo para a rua. Indo para a vida. Indo para o amor. Também há açúcar e desejo nas casas dos velhinhos. Explore a parte côncava dos braços abertos, experimente a nuca tensa de estar apaixonada. Há rapazes lindos que você nunca beijará e livros que você não lerá nunca, mas há outros que você comerá. Aí está, um móvel a montar. A desmontar. Extensões, torções. Cortes perfeitamente redondos se tornam cicatrizes perfeitamente redondas. O mundo é triste. O mundo é alegre. Mas não se deixe levar pela oscilação dessa máxima. Seja o que você quiser. Retorne a ligação. Ouça rádio. Não belisque os bebês. Estique os dedos. Estire-se. Abra os olhos. Feche os olhos. Um abraço.



 

 

 

 

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