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26.9.05
vértebra deslocada
O principal desafio da engenharia da emoção humana é faze-la resistir às tempestades. Era só pro vento me levar, mas o furacão foi embora comigo dentro. Amava sempre como se fosse feito de aço fundido, mas eu sou de papel crepom, meu coração bombeia tinta de caneta. Ao invés de lágrimas, eu choro amoníaco. Mas isso é uma vantagem, já que meu esporte favorito é chorar na área vip. E assim eu desinfeto os hipócritas. Qual a eficácia do sorriso sarcástico? Estou muito cansado para me transportar por todos estes bordéis, eu vou ficar em casa pra sempre, acumulando capital. Nos meus sonhos eu nunca conheço seriamente a sombra de um homem, e se eles não fossem dotados de tão forte coeficiente de realidade, eu nem dormiria, viveria nos lençóis a distinguir o simbólico do concreto, editando a vida. A vida. Um strip-tease no escuro. Envelhecer no freezer é uma repressão solitária, prefiro as coletivas. O fluxo da vida externa é uma fruição inocente. Os beijos são portáteis, mas o vermelho não é. Cobiço, quase religiosamente, o silêncio dos tigres. Mas esvaziar a cabeça não é tão fácil e divertido quanto esvaziar um cartão de crédito. Eu entendi o silêncio da sua carta. Você quis dizer que a metamorfose é uma rota impossível para alguém tão perdido como eu, que tem uma dúvida permanente quanto às direções. É, não poderia nunca ter imaginado que bifurcar seria o símbolo do drama. Saí na chuva de canivetes e não voltei. Era só pra chuva me lavar, mas ela descoloriu a minha encrespada pele de crepom. Agora uso os dentes para convencer-me da propriedade da carne, que avança ligeiramente no ranking na sua disputa com a alma. Mesmo assim, um coração tem muito mais tesão do que um pênis.
12.9.05
pálido, doce e distante
Parece seda, o vestido do fantasma. Apático companheiro de viagem, que assombra os terríveis precipícios que rodeiam a cama. As correntes se arrastam ao longo dos corredores das mansões enquanto brinco na gangorra, esperando a chuva. Mesmo molhado, sou o meu contrapeso mais preciso, é óbvio; mas não é tão divertido como poderia ser, com alguém mais pesado do outro lado causando impulsos mais passíveis de ferimentos, talvez para onde se movem os astros. Voar é uma maneira de conhecer a clausura de uma gaiola, não acredito em histórias de amor. Só acredito nos filmes de terror e nas mulheres que cantam chorando. Bebi toda a sua colônia, pensando que iria transcender, ou enlouquecer. Até mesmo nos elevadores abrem-se pop-ups quando se aperta um botão. Depois do amor, mais desencaixado se fica, percebe-se que as estrelas não estão fixas, que os planetas encolhem, é desesperador. Por isso eu queria abraçar a sua síndrome do pânico. Ou despedaçar o vidro que contém a vergonha. Mas reformas radicais não cabem no escaninho da censura. A paixão platônica é um sprinkler que esguicha sangue. Estou procurando desesperadamente outra maneira de ver a ausência. Eu quero a versão diluída, na qual ser invisível não quer dizer insignificante. Não posso mais viver sem buscar meu espírito, estou naquele momento da tragédia quando o herói descobre que está tudo errado. Quero estar animado para dar jantares, e disposto a não começar a beber vinho antes da chegada dos convidados.
3.9.05
mesocarpo
Ele já percebeu que eu sou um lírio maluco que gosta da água que cai do ar condicionado. Ele amarra a blusa na cintura, eu adoro. Quero observá-lo, e vou chutar a canela de quem ficar na minha frente. Descobri que estou dentro da minha cabeça, e não do lado de fora. Saltei do navio em pleno mar, mas ainda não acordei. Acho que nós não éramos predestinados. Mas eu viveria com você mesmo se fosse tudo RPG. Mesmo se fosse tudo déjà vu. Eu durmo à tarde com as cigarras. Meu beijo é spray de pimenta, vamos ficar no celular pra sempre. Minha cabeça está dentro do forno, estou viajando. Estou mordendo seus lábios, isso é amor. Como unir duas pessoas tão diferentes só com silver tape? Estão separadas, por um cânion assustador, as pessoas felizes e as pessoas que querem ser felizes. Não permita que eu saboreie os cogumelos venenosos da grande salada da vida, meus ombros têm pinos pra encaixar asas. Sou o x-men mais fodido. E os vestidos mais bonitos se sentem sufocados dentro do armário, eles querem passear. A emoção dos gatos está na cauda. A minha também. E eu estou tentando me acomodar em caixas cada vez menores.
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© Copyright muigats by Victor Carbone 2001-2005
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