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22.6.05
certeza light
Tomo um copo de suco de maracujá e fico retardado. Não como pipoca de microondas porque elas são muito fedidas. No lugar dos pés eu poderia ter rodinhas de carrinho de bebê. A coisa mais inteligente que tenho feito ultimamente é ignorar os garotos. Assim, eu os poupo. Eu visto minha fantasia de astronauta. E não como, não vou mais comer, vou só tomar chá. Criei um perfume com gengibre, mostarda e sândalo, enquanto aguardava o efeito placebo de um comprimido amarelo. Quando durmo meu coração devia descansar, mas ele quer festa. E eu quero apenas sobrevoar a cidade, transformar as moedas de 10 centavos em notas de 10 reais. Eu compro muitas pilhas. A vida é tão curta. E tão cara. Estar vivo é um luxo, um desfile. Minha infância foi uma tempestade. Mas foi a tempestade mais rápida. O resto tem sido uma chuva fina. Mas eu gosto dos dias cinzas. Gosto de música triste, filme parado. E eu gosto de você. E o modo como somos idiotas. Quando eu te abraço eu só posso sentir a textura da sua camiseta. Sua pele de algodão. Abraço seu pescoço longo e choro, e você lambe minhas lágrimas com sua enorme língua cor-de-rosa. Saio da água morna da banheira e vou nu até o tapete da sala. Sou um anfíbio. Mas eu queria ser desenho animado.
11.6.05
Procuro algo na bolsa. Não me sinto tão só. Tenho tanta coisa. Minha roupa parece uma salada. Acho que no meu caso, só com laser. As pessoas no supermercado me empurram. Elas acham que eu sou um carrinho, por causa do jeito que eu ando. Meio bicha. Elas querem que eu compre as mesmas coisas que elas. Mas eu odeio as cartas de amor dos outros. Minha depressão é uma visita chata, que adora meu sofá, meu café, meu papo e shop tour também a distrai. Louca.
3.6.05
Não sei o que me atrai mais: empresários ou sapatos. Durmo com os dois. Tento não me apaixonar. Constantemente. Sonho com uma injeção de nuvem direto no coração. Inferninho. Estou perdido, mas é tão bonita a compreensão do labirinto. A cidade. É um grande hospital. As bactérias apaixonadas adoram álcool. O vento está gritando palavras obscenas. Bate em mim. Não sei o que me assusta mais: o que sobra ou o que falta.
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